9 anos

A notícia de que uma uma idosa esteve 9 anos em casa, morta, no chão da cozinha, sem ninguém ter notado a sua falta, deixou-me chocado. Ninguém deu pela sua falta, incluindo familiares, e uma pobre vizinha andou todos estes anos a alertar as autoridades para que a encontrassem e nunca, uma vez que fosse sequer, entraram em casa dela para averiguar o que se passava. Acabou por ser o Fisco a arrombar a porta a fim de executar uma dívida fiscal. Tenho pouco a dizer para além do que escreveu Daniel Oliveira:

O que impressiona, para além da solidão que permite que alguém morra sem que ninguém dê por nada, é que o mesmo Estado que dá pelo não pagamento de uma dívida ao fisco não dê, não queira dar, pelo desaparecimento de um ser humano. Que o contribuinte exista, mas o cidadão não. Que quem tinha a obrigação de pagar impostos tenha deixado de existir nos seus direitos. A metáfora é macabra. Mas é poderosa. Este Estado que não se esquece – não se deve esquecer – de nós quando é cobrador, mas para quem não existimos quando nos é devida alguma atenção.

Diz-se que só há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos. Parece que para o Estado português só a segunda parte é verdadeira.

Portugal, como país, envergonha-me.